Enfrentar o diagnóstico de câncer de mama é uma jornada que exige coragem, informação e uma rede de apoio multidisciplinar e acompanhamento cardiológico é primordial para proteger o órgão antes, durante e após a terapia contra o câncer de mama.
O que é cardiotoxicidade e por que ela acontece?
Alguns dos medicamentos utilizados para quimioterapia contra o câncer de mama, as terapias-alvo e certos tipos de radioterapia na região torácica, têm como objetivo exterminar as células tumorais. Contudo, devido à sua potência, esses tratamentos podem eventualmente afetar células saudáveis do tecido cardíaco.
A esse efeito colateral no sistema cardiovascular dá-se o nome de cardiotoxicidade e pode se manifestar de forma assintomática no início e ser detectada apenas em exames de imagem e marcadores sanguíneos. Ou ainda evoluir para quadros de insuficiência cardíaca, hipertensão arterial, arritmias e alteração na capacidade de bombeamento do coração.
Sendo assim, a necessidade do monitoramento contínuo do coração durante a jornada da paciente oncológica é fundamental e comprovada cientificamente por diversos estudos científicos e diretrizes médicas.
Segundo um estudo publicado na Circulation, revista da American Heart Association, o risco de eventos cardiovasculares em sobreviventes do câncer de mama supera, em longo prazo, o próprio risco de recidiva do tumor em determinados grupos de mulheres de faixa etária mais avançada ou com comorbidades prévias.
De acordo com a Diretriz Brasileira de Cardio-Oncologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia, pacientes expostas a esquemas quimioterápicos com antraciclinas apresentam risco dose-dependente de disfunção ventricular. A incidência de cardiotoxicidade por este medicamento pode variar de 9% a 26%, dependendo da dose acumulada e dos fatores de risco prévios da paciente.
Esses números não existem para gerar receio, mas para alertar sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.
O papel do cardiologista antes, durante e depois do tratamento do câncer de mama
O acompanhamento cardio-oncológico atua como um escudo protetor em todas as fases do tratamento do câncer de mama:
1. Avaliação pré-tratamento
Antes de iniciar a quimioterapia ou a radioterapia, o cardiologista realiza uma avaliação detalhada (com exames como eletrocardiograma, ecocardiograma e dosagem de marcadores como troponina). O objetivo é identificar fatores como hipertensão, diabetes ou colesterol alto e estratificar o risco cardiovascular individual.
2. Monitoramento durante a terapia
Com exames periódicos, a equipe médica acompanha o comportamento do coração a cada ciclo de medicação. Se houver qualquer sinal de sofrimento celular ou queda na função cardíaca, o cardiologista intervém com medicações cardioprotetoras, permitindo que a paciente continue o tratamento oncológico com segurança.
3. Acompanhamento pós conclusão da terapia
A vigilância não termina com a última sessão de quimioterapia. A cardiotoxicidade pode se manifestar meses ou até anos após o fim do tratamento. O acompanhamento em longo prazo garante que a saúde do coração se mantenha preservada na fase de remissão.
Tratar o câncer de mama é cuidar da pessoa como um todo. A sinergia entre o oncologista e o cardiologista permite planejar a conduta mais segura e eficaz para cada paciente, aliando máxima eficácia contra o tumor com máxima proteção ao coração.





